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Pela riqueza do estilo, pela solidez da elaboração, esta novela é um tributo à própria língua portuguesa

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 Literatura  |

A Arte de Morrer Longe

 Mário de Carvalho, 2010

 

 

Numa era de tantas artes de viver, apregoadas aos sete ventos com tamanho alarde sapiencial, é gratificante deparar com esta arte de morrer – para mais, longe. O escarninho travo da expressão, caçada na cáustica fraseologia popular, fornece o tom para uma novela que encontra na amargura, temperada no sal da ironia, o seu timbre – e, numa cauta lucidez, a sua carta de marear. O narrador, na sua omnisciência gostosamente incerta, joga com o seu saber, remira, oculta e revela, a seu bel-prazer – «É um mistério que não consigo aprofundar o de saber a que ponto Clarinda estava ao corrente dos devaneios de Bárbara.» (p.59) Bem pouco luminosos pontos, os que a escrita de Mário de Carvalho, como escalpelo, recorta, inteiros – a lassitude dos brasileiros, a servir as dúbias vitualhas no comedouro de centro comercial, «a empilhar as cadeiras para o outro dia» (p.23); a vertigem hedonista das marcas comerciais; a voragem da sabedoria, no pronto-a-vestir internáutico; o cinema enquanto manjedoura de milho edulcorado; os inevitáveis workshops do nosso descontentamento diuturno; o cosmopolitismo culinário.

 

Metáfora da sua própria clausura – no acrílico do aquário, como na sua própria carapaça –, a tartaruga, trambolho comum aos cônjuges à beira do colapso, é esteio da própria acção, agente infiltrado da narrativa. Gerando e alimentando as faúlhas da separação iminente, acabará por juntar Arnaldo e Bárbara. Mas perecerá, por seu turno, couraça à mercê dos super-predadores – símbolo final da precariedade de todas as uniões?

 

A ficção é também um lugar (informado) do mundo, um ponto de reflexão – É a sina dos homens serem sistematicamente traídos pelos caprichos da realidade.» (p.13), modo de inquirir a própria vida e seus fautores, aventando, de través, hipóteses de leitura – «Parece que conservamos este medo ancestral que tolhia os nossos antepassados, encolhidos e silenciosos, num ressalto de terra, ou numa espessura de folhagens, transidos pelo estalidar dos ramos, o tombar secreto das folhas, o respiro de presenças furtivas.» (p.101). A sumptuosidade estilística é, em Mário de Carvalho, gesto estético, motor da fruição, mas também penhor de gratidão a um cânone, uma tradição – lida com um cisco de cepticismo nos olhos. Um estilo laboriosamente rico, de recorte tendencialmente clássico, nutrido de uma adjectivação bem oleada, alicerçado na solidez da construção frásica, que faz desta escrita uma celebração da linguagem, um manifesto tácito de oposição à indigência verbal – «Hoje quando se rasoura, ou melhor, se nivela a língua pela riqueza léxica de um certo Tarzan» (p.43).

 
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