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Até a destruição mais violenta exige que se parta de algum lado

 
   
 Literatura  | Filosofia

A Última Palavra

 Thomas Nagel, 1999

 

 

A última palavra nasce da sequência de um longo debate em relação à possibilidade de se alcançar a objectividade. É razoável pensar-se que o conhecimento objectivo é possível? Ou todos os pressupostos em que assentam o nosso raciocínio podem ser sucessivamente desmontados até que fiquemos sem nada com que pensar?

 

A proposta de Nagel é a seguinte: todos os ataques a construções da razão são admissíveis, excepto aqueles que são feitos à própria razão. Por duas razões: em primeiro lugar, porque perguntar se a razão existe é uma pergunta que já pressupõe o uso da razão, dissolvendo-se assim no momento em que é formulada; em segundo lugar, porque nenhuma resposta pode ser dada sem apelar à razão. Se é uma resposta racional, implica recorrer à razão; se não, é disparate.

 

Assim, Nagel propõe que qualquer ataque à razão seja «reconvertido» num ataque a um aspecto particular da razão. Por exemplo, suponha-se que alguém argumenta que a Teoria da Relatividade, tal como a Teoria da Selecção Natural ou a Hipótese dos Mercados Eficientes, são apenas construções sociais: não relevam do exercício da razão mas apenas dos preconceitos sociais dos seus autores. Este ataque generalizado à razão deve ser entendido como uma crítica a cada uma destas ciências.

 

A partir daqui, caberá a cada físico, biólogo ou economista «defender a sua dama». Toleram-se quaisquer ataques específicos a teorias e hipóteses específicas, dado que os cientistas são humanos e é uma exigência epistémica admitir que se tenham enganado (ou que nos estejam a enganar). Mas não se aceita nenhum ataque generalizado, de princípio, à própria faculdade da razão. Podemos tirar todas as prateleiras de uma estante até ficarmos sem nada; mas não o podemos fazer se não tivermos chão firme onde nos apoiarmos. Até a destruição mais violenta exige que se parta de algum lado.

 

Nagel analisa os ataques à matemática, à lógica, à ciência e à filosofia. O livro é pequeno mas denso: por vezes é preciso voltar atrás para ler melhor os argumentos para não perder o fio à meada. A conclusão é também o título do livro: depois de tudo se desconstruir, nada mais há a dizer. A inviolabilidade da razão é «a última palavra».

 
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