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Eloquência prosaica e talento para o retrato

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 Música  |

Há Festa na Moradia

 B Fachada, 2010

 

 

Qualquer pessoa que já tenha ouvido com atenção – com atenção, sublinhe-se – a música de B Fachada, seja qual for o preconceito, a ideia feita, ou a expectativa com que a aborda, terá dificuldade em negar um simples facto: são canções que prendem. Canções que fixam o ouvido, que obrigam a perceber a próxima frase cantada, o que está ali a ser dito. Há uma singularidade muito grande em misturar estranheza e familiaridade em doses tão iguais: é esse o primeiro apelo da música de B Fachada.

 

Há Festa na Moradia não vem destoar: depois de Um Fim-De-Semana No Pónei Dourado e B Fachada, o músico lança sete canções ao ar como foguetes – para celebrar a chegada do Verão, diz-se. Sete novas provas da eloquência prosaica (Memórias de Paco Forcado, vol. 1, Quem quer casar com B Fachada) e do talento para o retrato (Joana trasmontana», Há festa na moradia) do autor lisboeta. A abrir e a fechar, duas pérolas de introspecção: Enquanto temos boa mão e Tema do melancómico, esta última embrulhada num exercício estilístico muito inspirado. Tudo feito com a costumeira tonelada de pose, o linguajar datado, aqui e ali, sem que nada soe a falso.

 

A composição continua o traçado delineado pelo álbum anterior e a irradiar maturidade. Sem nunca tirar o polegar do pulso das raízes da música popular portuguesa – há Fausto em muitas esquinas de Há Festa na Moradia – os arranjos vão-se versatilizando, adensando, e a voz de Bernardo vai assumindo outras formas, vai sacudindo os trejeitos e os tiques sem os perder irremediavelmente. Quanto ao que interessa, a arquitectura das canções, essa continua intacta.

 

Talvez nos comecemos a habituar mal com esta injecção semestral de B Fachada, mas só nos resta esperar que o ritmo se mantenha. A cada tijolo posto na edificação da identidade de Fachada, vai-se adivinhando já uma certa imponência que não havemos de poder negar, um dia. Mais do que à procura de si próprio, vemos B Fachada a desdobrar-se, a seguir o seu caminho. É deixá-lo ir. E deixá-lo entrar onde ele quiser.

 

Há Festa na Moradia está disponível para download no sítio da editora Mbari e, em Agosto, será editado em formato vinil de 10”.

 

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