27,07.2010
|
Alexandre Gamela
A internet não vai de férias
«Nunca foi tão interessante ser jornalista. Ou leitor, já agora»
Já faz algum tempo desde a minha última crónica no Rascunho.
Foram uns meses complicados de trabalho, voltei para Portugal e ainda não tive
uns dias de férias desde que cheguei. Mas não me estou a queixar, estou farto
de dizer que este é um dos períodos mais interessantes e revolucionários da
História, só temos é que aproveitar.
No jornalismo as regras mudam ainda antes de estar escritas
e gostava de salientar alguns dados e acontecimentos que mudam a percepção do
que é o jornalismo hoje em dia:
– Há uns dias atrás Mr.Steed dizia que «O número de pessoas
que segue a página do Público no Facebook já é superior à circulação média da edição em papel do jornal». Média de 30
mil cópias diárias contra quase 50 mil utilizadores. Estudos revelam que as
redes sociais são cada vez mais o caminho por onde todos nós vamos vendo as
notícias. Junte-se a isso o facto de o Facebook ter atingido os 500 milhões de
utilizadores e percebemos que o paradigma mudou.
– O Jornal do Brasil deixou o papel para se transformar numa edição exclusivamente digital, o que levou à demissão de um dos seus directores. O papel
não perdeu importância, mas perdeu mercado. A questão que se levanta é como
reconverter uma mentalidade baseada em processos para o papel, e criar recursos
e metodologias para o digital. Quem não acredita no futuro que se afaste por
favor.
– E ontem vimos como o poder da Internet e a
disponibilização de dados online pode criar uma das maiores histórias de
sempre: o Wikileaks disponibilizou seis anos de dados sobre a acção militar
americana no Afeganistão com todos os erros e acidentes de percurso das forças
americanas. Pontos-chave da importância deste acontecimento: o Wikileaks não
tem um país de origem, vive na Internet, o que o liberta de uma série de
restrições, como está explicado neste excelente artigo. Depois,
toda a gente pode aceder a esses dados. TODA A GENTE. Logo, há espaço para que
a análise dos documentos seja feita por milhares de cabeças e uma possibilidade
imensa de se descobrirem novas histórias, é o crowdsourcing a funcionar, assim
como uma espécie de jornalismo espontâneo. Num tema relacionado, a Islândia pode transformar-se num paraíso para a actividade
jornalística.
E qual é o significado disto tudo? Nunca foi tão
interessante ser jornalista como agora. Ou leitor, já agora.
Alexandre Gamela |